Os caminhos do empreendedorismo tecnológico são muitos, mas inspirar-se em alguns exemplos mundiais pode ajudar a traçar caminhos mais certeiros. No mês de março deste ano, a fabricante de chips Intel anunciou a compra por 15,3 bilhões de dólares a startup israelense Mobileye, que desenvolve tecnologia de veículos autônomos. O acordo em si não foi uma surpresa, já que a empresa americana de microprocessadores dava sinais de que buscava novos mercados. O grande destaque dessa movimentação foi que o mundo voltou os olhos para o mercado de startups de Israel. Segundo reportagem publicada pela revista Exame, Israel é um centro tecnológico mundial e, com apenas 8 milhões de pessoas, é a segunda nação mais inovadora do mundo, de acordo com dados do Relatório de Competitividade Global 2016-2017 do Fórum Econômico Mundial (FEM). Como seguir esse exemplo para que sejamos ainda mais inovadores? Quais são os indicadores de que estamos no caminho certo?

Empreendedorismo tecnológico em Israel e no Brasil

Comparar dois cenários completamente diferentes é complicado, especialmente pela complexidade dos países e pela situação política de ambos. Apesar disso, o país do Oriente Médio possui uma cultura onde o empreendedorismo tecnológico é tão forte que chega a tirar o foco de outros problemas. É preciso pensar de forma criativa e empreendedora para ganhar o próprio dinheiro. Apesar das dificuldades brasileiras não serem comparadas a um estado de conflitos, há características no cotidiano que também obrigam a população a ser criativa.Por isso, trouxemos alguns motivos que fazem de Israel uma nação empreendedora e que podem servir de exemplo para o Brasil:

Ecossistemas de inovação

Ainda segundo a reportagem da Exame, em Israel há mais de 300 multinacionais, como Google, Intel e Microsoft convivendo a poucos metros de distância. Lugares como esse chamam a atenção tanto das empresas menores, quanto do mercado mundial, que passa a olhar os ambientes como focos de investimento na bolsa de valores, por exemplo. Já falamos aqui no blog CERTI Insights sobre a importância de fortalecer ecossistemas de inovação, locais onde grandes empresas e startups possam conviver e ajudar umas as outras. Pode parecer apenas um detalhe, mas,estando mais perto fisicamente torna-se natural as parcerias, a promoção de eventos e a atração de jovens funcionários apaixonados por empreendedorismo tecnológico. Essa lição o Brasil tem aprendido rápido. A cidade de Florianópolis (SC) é destaque nesse contexto e vive um processo onde novas e promissoras startups surgem a todo momento.

Incentivo desde cedo

Conforme reportagem publicada pela revista PEGN, a cultura empreendedora em Israel começa desde a infância. Boas ideias são levadas adiante e logo uma lista de contatos é acionada para viabilizar o projeto. Até a forma de brincar das crianças é diferente. A publicação conta que,nos anos 50, uma metodologia criada por um professor de jardim de infância passou a incentivar as crianças a brincar com objetos cotidianos, sem necessariamente explicar qual função eles teriam. Desde então, as crianças brincam com sucata e criam seus próprios brinquedos. Isso incentiva muito a criatividade e o trabalho em grupo.

Outro ponto interessante é que há um aspecto na formação dos jovens: o estado de constantes conflitos. Isto faz com que sejam criadas inovações para solucionar questões importantes para o país. Trazendo este exemplo para o contexto brasileiro, não é necessário ter uma condição igual para perceber que é possível identificar e incentivar boas ideias. Hoje há programas estruturados e com resultados bastante significativos nas universidades e políticas públicas de incentivo à criatividade e empreendedorismo nas escolas.

Persistência

Em Israel, um fracasso jamais é visto como um desfecho, mas sim como parte importante do processo. Inbal Arieli é uma empreendedora considerada guru no cenário de startups de alta tecnologia de Israel. Em entrevista à reportagem da Exame ela disse: “no setor de alta tecnologia em Israel, 90% das startups fracassam. Então, de cada 10 empreendedores, só um terá sucesso.” Esse entendimento ainda é um pouco difícil para alguns empreendedores no Brasil. A maioria deles foca nos exemplos de sucesso e acredita que irá faturar milhões logo na primeira tentativa quando, na verdade, isso dificilmente ocorre no cenário do empreendedorismo tecnológico.

Num levantamento feito pela Folha, no Brasil, o índice de fracasso é de pouco mais de 60%. Se considerarmos o alto risco ao qual essas empresas estão expostas, um fracasso de 6 em cada 10 não pode ser considerado negativo. A mesma reportagem também informa que o motivo principal para o fechamento das empresas é o desentendimento entre os sócios, e não o fracasso da ideia em si.

Ver oportunidades em problemas

Um dos exemplos mais conhecidos vindos de Israel é o Waze, um dos aplicativos de trânsito mais conhecidos do mundo. A startup, vendida para o Google por 1,3 bilhão, surgiu para solucionar um problema cotidiano e comum de quem vive em grandes cidades no mundo inteiro. A ideia é relativamente simples e objetiva, mas resolve perfeitamente a situação. No Brasil, a população é famosa “jeitinho”, mas de forma depreciativa. Essa capacidade do brasileiro de resolver adversidades de forma criativa, pelo contrário, deve ser vista como oportunidade para o empreendedorismo tecnológico, pois existe um potencial para resolver problemas comuns e colocar boas ideias em prática.

Como minha empresa pode se inserir nesse contexto?

Apesar de estarmos em contextos diferentes, a grande lição que Israel nos traz é que não há empreendedorismo sem cultura empreendedora. Empresas consolidadas que não apostam em empreendedorismo tecnológico logo não estarão mais alinhadas com o mercado. Novas empresas que não enxergam além, não são capazes de se conectar com os ecossistemas e não aprendem com os próprios erros, estão destinadas ao fracasso. Por isso, é tão importante que haja mecanismos para que o ambiente de inovação esteja sempre fértil.

Para as médias e grandes empresas, recomendamos que o investimento em P&D seja constante. Hoje, há diversas formas de obter incentivos e captar recursos para este setor (leia nosso material completo sobre o assunto clicando aqui). Sendo assim, firmar parcerias com instituições que estão conectadas com o mercado brasileiro e internacional, como a CERTI, é fundamental. Uma vez inserida no contexto, a empresa pode conectar-se a outras que estejam desenvolvendo produtos complementares, conhecer novas tecnologias e abrir um leque de possibilidades.

Para as startups, oportunidades para mostrar ideias e amadurecer ideias são fundamentais. Um grande exemplo é o Sinapse da Inovação , que ajuda a desenvolver projetos desde a fase inicial. Programas assim são uma maneira inteligente de pular etapas e evitar alguns erros que empreendedores iniciantes costumam cometer. Com cursos e mentorias, é possível aprimorar e criar, de fato, um produto interessante para o mercado.

O importante é entender que o empreendedorismo tecnológico é algo em constante mudança e que precisa ser alimentado e incentivado de diversas maneiras. Ambientes de inovação são feitos de pessoas com boas ideias e muito trabalho. Gigantes da inovação, como Israel, não surgiram do dia para a noite. Tudo indica que, se continuarmos no caminho certo, nossos ecossistemas também trarão excelentes resultados.

Coordenadora de Projetos de Empreendedorismo Inovador

certi@certi.org.br

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