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O termo cidades inteligentes normalmente é associado ao uso de tecnologias para resolver problemas cotidianos. De fato, há muitas experiências em andamento para tornar realidade algumas situações que até pouco tempo só existiam em filmes, como carros autônomos, portas que abrem e fecham sozinhas ou equipamentos que respondem a comandos de voz. Algumas cidades até experimentam soluções práticas. Um exemplo é a rua Vidal Ramos. em Florianópolis, que possui uma rua com roteadores Wi-Fi e câmeras inteligentes, que podem ser acessadas pelos comerciantes e órgãos de segurança pública.

Mas fazer isso é apenas uma parte da solução. Este artigo, publicado no portal Gazeta do Povo, destaca a velocidade que as novas soluções surgem não é capaz de suprir as desigualdades e, pelo contrário, pode acentuá-las. O autor Dyonata Laitener Ramos, coordenador de projetos no Instituto das Cidades Inteligentes (ICI), destaca três principais barreiras:

  • Burocracia;
  • Falta de espaço para que a iniciativa privada colabore com soluções públicas;
  • E falta de expertise da gestão pública para integrar as diversas tecnologias.

E é justamente neste último ponto que acreditamos se encaixarem os ecossistemas de inovação. Sem integração entre todos os agentes interessados em tornar as cidades inteligentes, de fato, boas para quem vive nelas, todo esforço para criar novas soluções será em vão.

Entende-se por ecossistemas de inovação a cooperação entre todos os personagens envolvidos no desenvolvimento, fabricação, comercialização e uso de uma solução inovadora. Isso quer dizer que é necessário que haja uma comunicação mais eficaz e uma colaboração real que vá desde o fornecedor de matéria-prima até o consumidor final. Mais do que isso, que no meio deste caminho também colaborem os governos e a sociedade. Difícil? Certamente sim. No entanto, se seguirmos pelo caminho certo, essa integração será real e absolutamente possível.

Ecossistemas antes, cidades inteligentes depois

É no mínimo tentador começar a investir fortemente em soluções que prometem resolver problemas pontuais como a mobilidade urbana, por exemplo. No entanto, para que de fato as cidades inteligentes reflitam em benefícios para os cidadãos, é necessário que os gestores públicos se dêem conta de que, antes das soluções pontuais, é preciso haver o investimento nos ecossistemas e em iniciativas que proporcionem uma base para essa inovação, ou seja, falta apoio incondicional ao empreendedorismo.

Existem diversas formas de fazer isso. A iniciativa privada fez diversas tentativas de inovar e trabalhar em rede, mas é preciso mais do que isso. Sem a ajuda do governo e da sociedade, essa integração nunca será completa. Para que você entenda como isso pode funcionar, separamos algumas iniciativas que mostram caminhos para que a promoção da inovação ocorra, de fato, de forma sólida. Elas estão em funcionamento e trazem excelentes resultados:

Criação de programas de inovação

Os programas voltados à inovação são aqueles que oferecem incentivos e mentorias para jovens empreendedores que tenham boas ideias e queiram colocá-las em prática. O maior exemplo que temos, e que é orgulho para a Certi, é o Sinapse da inovação. Presente atualmente nos estados de Santa Catarina, Amazonas e Espírito Santo, recebeu mais de nove mil ideias inovadoras em diversas áreas como TIC, eletroeletrônica, metalmecânica, biotecnologia, nanotecnologia, novos materiais, tecnologia social, gestão, entre outras. Das empresas que surgiram a partir do programa, 83% continuam ativas. Tal sucesso só é possível porque o programa foi estruturado para atuar de forma sistêmica e não individualizada. Sendo assim, as empresas criadas, quando entram no mercado, fazem parte de uma rede de parceiros mais sólida e têm mais chances de sobreviver. Dessa forma, o conhecimento se traduz em produtos inovadores.

Incubadoras de aceleradoras

A partir desse primeiro passo, o produto iniciante ainda precisa de incentivo. Aí entram as incubadoras e aceleradoras. Elas têm como objetivo mostrar “o caminho das pedras” e inserir a empresa nascente no contexto. Quando esse entorno ainda não está totalmente estruturado, ou seja, quando as empresas maiores ainda não estão se comunicando de forma sistêmica, a incubadora não consegue atingir seu objetivo máximo. Na prática, isso quer dizer que o ecossistema deve trabalhar e incentivar essa etapa da geração do conhecimento e não marginaliza-la. O apoio incondicional ao empreendedorismo começa aqui, quando as empresas maiores percebem que precisam das menores para continuar inovando e mantendo o ecossistema vivo. A partir daqui, o produto inovador passa a se transformar, de fato, em uma empresa nascente.

Parques tecnológicos

Pensar em cidades inteligentes sem antes pensar em parques tecnológicos é praticamente impossível nos dias de hoje. Podemos classificar esses ambientes como os locais onde esse ecossistema se dá de forma física. Nele, instalam-se as incubadoras, as novas empresas que foram criadas a partir do programa e as grandes empresas que estejam dispostas a cooperar. Dessa forma, o ambiente se torna referência e fica mais fácil entender como os diferentes agentes funcionam e contribuir para que o ecossistema dê certo. É aqui que as empresas ganham escala, se tornam visíveis para o mercado e ganham corpo para ajudar novas empresas nascentes.

Parcerias público-privadas

Como mencionamos no início do texto, além da falta de cooperação, duas outras barreiras enfrentadas pelas cidades inteligentes são: burocracia e a falta de parcerias público-privadas. A primeira, se dá principalmente pelo fato de que o modo com que as leis são dispostas não está sendo possível acompanhar a velocidade das transformações. Seria preciso encontrar maneiras de agilizar os processos de modo que tudo que surge possa reverter-se em bens para a sociedade de forma mais veloz.
O segundo ponto depende da vontade pública e do conhecimento dos líderes governamentais sobre a importância de contribuir para a formação do ecossistema antes mesmo de pensar em soluções pontuais para criar cidades inteligentes. Com uma base sólida, certamente soluções inovadoras para cidades inteligentes tendem a surgir naturalmente, gerando emprego, renda e riquezas para o estado ou cidade em questão. Mas como? Veja:

Parques tecnológicos como ambientes para testar inovação

Agora que vimos que investir em soluções pontuais para a criação de cidades inteligentes não é tão interessante quanto apostar em ecossistemas de inovação, você pode estar se perguntando como as soluções surgirão a partir desse ecossistema. Por isso separamos 4 motivos pelos quais acreditamos que é a partir dos parques tecnológicos que as cidades inteligentes tendem a surgir:

Cooperação entre as empresas

Uma solução para cidades inteligentes tende a não ser tão simples. Pense, por exemplo, no problema da mobilidade urbana. Para resolvê-lo, precisaríamos ter uma rede de soluções que envolvessem transporte público e privado, inteligência de horários e sincronicidade de sinaleiras, aplicativos que facilitem a vida do pedestre e do ciclistas, enfim. Dificilmente uma só empresa seria a responsável por resolver todos os problemas. Imagine, o quão interessante seria se, mesmo que independentes, elas trabalhassem juntas e, mais do que isso, oferecessem soluções complementares e com custo mais baixo para as pessoas e para o governo. Os parques tecnológicos são ambientes que podem promover isso. É aqui que a pequena empresa encontra a grande empresa e ambas com suas qualidades podem ajudar-se para produzir soluções melhores.

Referência para a cidade

A maioria dos parques tecnológicos no Brasil ainda são iniciantes. Tanto que nem todas as pessoas entendem a importância que eles têm para o futuro. No entanto, se os governos apostarem neles como uma referência, é natural que o desenvolvimento seja mais rápido. Quando há incentivo, jovens sonham em trabalhar nesses locais, novas empresas se mudam, os imóveis ao redor se valorizam e todo o ecossistema se fortalece.

Validação do público

Se pensarmos nos parques tecnológicos como mini cidades inteligentes, fica interessante imaginar como eles poderiam servir para a validação de produtos. Os parques tecnológicos podem servir como o ambiente ideal para que as pessoas possam ter acesso ao que está por vir e dêem opiniões sobre o que pode ser melhorado, aquilo que gostam ou não, se comprariam o produto etc. Hoje em dia essas pesquisas naturalmente são feitas. No entanto, em um ambiente como esse, pode haver vários testes ocorrendo ao mesmo tempo e o local se torna referência para o público.

Oportunidade para consertar erros

Investir tempo e dinheiro em algo que não é interessante para o público certamente é uma barreira enfrentada por muitas das empresas que trabalham com inovação. Quando estão inseridas em um ambiente inovador esse risco diminui já que, antes do desenvolvimento, ele passa por diversas etapas de validação, pode ser testado e aprimorado, ou mesmo pode ser abandonado antes que represente prejuízos expressivos.

Nesse contexto, vimos que pensar em cidades inteligentes é muito mais do que colocar tecnologia nas grandes cidades, deve ser um modo de pensar em rede. Só assim, as tecnologias, de fato, representarão ganhos econômicos para a população e resultarão como consequência em mais qualidade de vida para as pessoas que vivem esse ecossistema. Na Certi, pensamos continuamente em como criar essas redes de apoio para que elas não formem apenas pontos isolados de relacionamento, mas sim teias que no futuro se tornarão sólidas bases para o surgimento de outras empresas.

Caso tenha interesse em saber mais, entre em contato conosco!

Diretor de Empreendedorismo Inovador

certi@certi.org.br

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